A zona dos consultórios está a ser remodelada, por isso estávamos num quartinho numa ala antiga, que ainda tem as portadas vitorianas e as grades dos tempos em que era uma cela com paredes almofadadas. Agora está cbeia de pilhas de papéis e pastas e relatórios nunca lidos com títulos atemorizantes e duas cadeiras "confortáveis" do SNS, enlouquecidas pelo uso, e um armário de arquivo em cima do qual há um tabuleiro redondo com chávenas sujas de café e um pacote velho de leite. Lá fora andava um enfermeiro a rondar.
Iniciei a cavaqueira, como se espera que faça.
- Se a Doutora fosse Deus, por que razão se ausentaria da Terra?
Resposta, nada.
- Quero dizer, em termos divinos, qual é a finalidade de cá não estar? Qual é a função que isso serve?
Ainda nada de resposta.
- Tradicionalmente - continuei eu -, é-nos explicado que se trata de um "teste à nossa fé". Mas se a presença de Deus fosse evidente, então não se necessitaria de fé, pois não? De modo que é uma argumentação circular. E também parece ser uma argumentação ex post facto, não parece?
- O que é que você acha? - perguntou a Dr.ª Sen.
- Eu acho que um Deus sábio não concluiria que as vantagens de estar ausente pesem mais que as de estar presente.
- E?
- A consequência de estar ausente é que se atribui um valor excessivo à "fé" cega. Torna-se a crença acessível à credulidade humana. Torna-se a religião acessível à perversão das políticas e do fanatismo.
- E então?
- Eu teria achado que era melhor aparecer.
Silêncio
- Quero dizer, se o Woody Allen sabe que noventa por cento do sucesso se garante simplesmente por aparecer, pensar-se-ia que o Todo-Poderoso também já teria percebido isso.
Silêncio mais prolongado. Tentei fazê-la falar, pondo um ar feroz e todavia permanecendo em silêncio.
- Você é crente? - perguntou ela por fim.
- Acha que sou? Eu vejo pessoas fazerem que sim com a cabeça em frente ao Muro das Lamentações e acho que Deus precisa mais de nós que nós precisamos dele. É tudo uma questão de ausência não é?
A sobrancelha.
- Dizem que a presença de uma pessoa é mais intensa imediatamente após ter partido.
- Está a falar de alguém que ama? - perguntou a Dr.ª Sen.
- Não é palavra que eu use.
- Nunca? - e sem querer. - Nunca amou ninguém?
- Tanto quanto eu entendo, o amor é algo que cessa de existir se deixarmos de o sentir.
Outra vez a sobrancelha.
- "O nosso amor morreu." Já ouviu dizerem isso, não ouviu? Com sinceridade e dignidade. O "amor" é uma força ou um valor pelo qual a maioria das pessoas afirmariam reger as suas vidas. Porém, se deixar de o sentir então ele já não existe.
- E?
- É como o medo ou a inveja. Um dia sentimos inveja de outra pessoa; noutro dia, sem qualquer razão discernível, simplesmente não a sentimos. Às vezes vamos dentro de um carro, com medo; outras vezes, com o mesmo condutor, não vamos. O "amor" é assim. Sente-se, não se sente. Não há nada de errado nisso. Mas de certeza que o torna demasiado instável para lhe atribuirmos uma posição previlegiada na nossa vida... quanto mais usá-lo como base da nossa vida.
- E que você atribuiu uma posição privilegiada na sua vida?
Era uma pergunta bastante boa.
- À exactidão - disse eu.
- A quê?
- À integridade dos factos.
- E é tudo?
Sorri.
- Está a pensar que isto parece um pouco "frio"? Bem, não me parece de certeza que em retrospectiva se pudesse dizer que a minha vida tem sido... Uma expressão que lhe agradasse a si? Já sei, já sei. Não se poderia dizer que eu estivesse "do lado da vida".
A Dr.ª Sen não respondeu.
- Ninguém descreveria a minha história como "um sim à vida", pois não?
Eu ri-me, mas ela não.
- Não. E suponho que se não estive do "lado da vida", então terei de ter estado do outro lado.
- E que lado é esse?
O lado da morte, obviamente. No entanto, não o disse, porque não a queria perturbar. Mas depois de a consulta ter terminado, pensei nisso. Na minha vida nunca estive propriamente de lado nenhum, e isso talvez seja parte do problema. Talvez devesse simplesmente escolher uma causa, como as pessoas escolhem uma equipa de futebol, não porque "é" a melhor, mas apenas porque lhes dá algo em que acreditar, como um boneco ou um ídolo.
Por outro lado, fazer tal coisa de maneira consciente, admitir que me estou a enganar a mim próprio, seria como abdicar de qualquer conceito de integridade."
Excerto de "Memória Traiçoeira", de Sebastian Faulks, bem perto do final do livro... Acabei de o ler aí pela semana passada ou assim... Ah, as saudades que Mike Engleby me vai deixar... Este é definitivamente um livro que voltarei a ler... Tenho pena que grande parte do livro me tenha passado ao lado, uma vez que pouco ou nada percebo de arte, literatura, política, e até mesmo história... Mas aquela personalidade mórbida, aquela mente reflexiva, a atenção ao detalhe, a repulsa por certas e determinadas regras sociais (e religiosas)... Dos pensamentos mais parvos às derivações mais sombrias, eu bebi as palavras de Mike Engleby no seu atormentado "diário"... E o pior é que vi o meu modo de pensar espelhado em certos momentos... Assinalei a negrito alguns desses neste excerto...
Acho que foi um dos melhores livros que li nos últimos tempos... Talvez equiparado a "A História de Lisey" de Stephen King... Depois de acabar o livro tive que ler um de Nicholas Sparks, para dissipar um pouco a imagem de Engleby da minha memória... Da prateleira escolhi o recém-adquirido "O Diário da Nossa Paixão", e qual não foi a minha surpresa, gostei muito mais do FILME que do LIVRO... Sim, gostei mais de um FILME baseado num LIVRO que do próprio livro... Eu acredito que deve ser crime nalguns países, e provavelmente passível de um castigo de grau extremo em algumas religiões, mas não o posso evitar... É que o raio do filme está muito melhor que o livro... Quer dizer, o livro não é mau, mas o filme tá bem melhor e pronto... Claro que há coisas que no filme estão estúpidas, como o Noah escrever-lhe 365 dias durante um ano, quando na verdade foram dois anos (e não foi diariamente, ok? give the guy a break)... Mas acho que o livro tem "sexo" a mais, tipo, fiquei chocado ao ler "sentiu um calor entre as pernas" e coisas do género num livro de Nicholas Sparks... Não sou púdico nenhum, mas aquilo parecia deslocado... Além do mais, passei o livro todo à espera da discussão deles, que tanto gostei no filme... Mas NADA... "Onde está a discussão?! Eles discutem!! O que aconteceu à discussão?!"... Acho que torna as coisas mais reais... Acho que se tivesse lido o livro primeiro estaria a criticar o filme, e por um lado isso serve-me de algum consolo... No entanto, achei a história do filme bem melhor, e pronto.
Quando acabei de ler esse livro comecei o "Cell", de Stephen King, e adorei. Não o "adorei" ao ponto de o colocar no mesmo pódio que "Memória Traiçoeira" e "A História de Lisey", porque simplesmente é um estilo diferente, mas o facto é que a história está de génio... Faz-me muito lembrar o filme "Dawn of the Dead" (Não vi o original de 1978, por isso refiro-me ao remake de 2004), e os próprios personagens o admitem durante a história... Estão a ver que filme é, certo? "Quando o inferno estiver cheio, os mortos caminharão sobre a terra.", qualquer coisa assim do género, refresca a memória? Anyway, no "Cell", os "zombies" não são fruto de nenhuma patologia contagiosa, mas sim pessoas que estavam a falar ao telemóvel quando "O Impulso" ocorreu... O comportamento deles torna-se louco e agressivo, com instinto homicida (e em alguns casos suicida), e as poucas pessoas "normais" têm que se refugiar... Eventualmente apercebem-se de padrões no comportamento dos "telefonadores" e começam a viver só de noite, sempre a caminho do Norte, onde "o nosso herói" espera encontrar o filho e a ex-mulher sãos e salvos... Pelo caminho deparam-se com outros bandos de pessoas "normais", e como é de esperar, numa sociedade em decadência, desprovida de toda o luxo e tecnologia a que estamos acomodados, até mesmo roubados da própria luz do dia, esses encontros não são tão pacíficos como deveriam ser... É um livro de terror apaixonante mesmo... Se o meu irmão se interessasse pela leitura iria adorar o enredo (porque ele não usa telemóvel)
Quando acabei de ler o "Cell", vi-me incapaz de escolher o próximo livro, e então deixei que o meu irmão o escolhesse por mim, na condição de "caso escolhas algum que eu já tenha lido, dou-te com ele na cabeça, combinado?" "combinado!"... O certo é que o puto escolheu o único livro de Nicholas Sparks que tenho que ainda não li (deve ter sido um golpe de sorte) e embora não estivesse muito virado para isso depois de me ter desiludido com o anterior, trago comigo "Laços que Perduram", e vou lendo, porque o prometido é devido...


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